Preparação Física

ANÁLISE COMPETITIVA PARA TRANSFERÊNCIA AOS MÉTODOS DE TREINO, ATRAVÉS DA INDIVIDUALIDADE BIOLÓGICA, TÁTICA E TÉCNICA (TOKUI WAZA) INDIVIDUAL E PRESERVAÇÃO GERAL DO ATLETA.

Marcus Albuquerque (Preparador físico da Seleção Brasileira de Judô)

O Judô caracteriza-se por uma diversidade de movimentos e uma cinestesia única, com movimentação espaço-temporal com alto nível de complexidade, frequência intensa de trabalhos musculares assimétricos agonistas/antagonistas e utilização mista dos sistemas energéticos funcionais, dependendo do tipo de tática empregada em cada combate, cada um diferenciado do outro em detalhes singulares.

A toda essa ampla margem de ação competitiva, soma-se um calendário intenso, extenuante, que inclui, em determinados momentos, até dois a três ciclos olímpicos. As características dos modelos de competição e montagens de rankings impõem reviravoltas em planejamentos periodizados sobre duas ou mais possibilidades de desdobramentos de calendários, dependendo do desempenho do(s) atleta(s) nas etapas classificatórias.

Com isso, a principal parte do processo, O ATLETA, fica à mercê de multifatores que fogem ao seu controle quase completamente. Dentre estes, o mais importante é a sua manutenção estrutural física e psicológica, sua saúde plena, sua natureza de competidor, a vontade competitiva e, o supra-sumo, sua gana e garra de campeão, vencedor, sempre.
Para melhorar o desempenho e diminuir os problemas, vale a máxima do “quanto menos, melhor!”. Pois por ter múltiplos aspectos, o Judô deve incidir em sintonia fina através de sua especificidade, para preservar e manter o atleta por muitos anos, reduzindo lesões e acúmulo de estresse fisiológico e psicológico.

Uma das formas de reduzir o excesso de treino é estudar as competições em suas formas de desenvolvimento, ou seja, criar um mecanismo de estudo descritivo dos fatores que acontecem no exato momento da disputa. A isto, chama-se tabela de desenvolvimento de atuação, onde são coletados dados como o tempo de luta (levando-se em conta as divisões de mate/hajime), ataques realizados por tempo fracionado (pode-se utilizar um minuto como padrão), técnicas utilizadas, lateralidade de ações etc., análises estas feitas tanto em relação ao(s) atleta(s) estudado(s) quanto ao(s) seu(s) adversário(s).

A análise das competições, através de “tabelas de desenvolvimento de atuação” (scouts), revela as principais características do desempenho vitoriosa do(s) atleta(s). Estas tabelas incluem o maior número possível de dados a serem coletados e analisados, que podem influenciar diretamente o planejamento e a estruturação dos treinos físicos em todas as suas fases. Na primeira, de análise de dados competitivos e transferência de informações, está a coluna central do desenvolvimento de todo o planejamento de ações, seja de uma equipe, mista ou não, de uma categoria determinada, ou de um indivíduo. Dentro da coleta geral de dados da competição, subdividem-se as principais características da periodização específica:
- gênero.

As diferenças competitivas entre os gêneros focam, principalmente, a diferença entre os níveis de desenvolvimentos das qualidades físicas, incluindo aí aspectos femininos exclusivos, relacionados ao aparelho reprodutor (aumento de peso corporal no período menstrual, TPM, regulação hormonal através de anticoncepcionais etc.).
- classes.

As fases de crescimento e desenvolvimento motor, funcional e psicológico são o cerne do planejamento em longo prazo e deles, e sua melhora funcional, dependem em grande parte a longevidade competitiva do(s) atleta(s).
- categoria.

A análise intrínseca dos padrões de desenvolvimento das lutas, através dos scouts, apresenta nuances importantes na utilização das qualidades físicas e sistemas energéticos, pelo(s) atleta(s), durante as competições, nas diversas categorias Essa diferenciação vai nortear, basicamente, os treinos específicos de ganho de potência e velocidade, e aprimorar as demais qualidades físicas, baseando-se na tática e técnica individual.
- táticas, tanto própria(s) quanto do(s) adversário(s).

Ponto crucial para o desenvolvimento da utilização dos sistemas energéticos na imposição de ritmo de luta e condução do combate. Dados utilizados para a formatação dos treinos tático-físicos no dojo, com ênfase a mudanças de placar, ataques sucessivos, ganho e manutenção de kumi kata e busca imperiosa de ippon, o mais rápido possível.
- técnicas mais utilizadas, tanto contra quanto a favor.

As tokui waza definem, desde sempre, o programa de desenvolvimento muscular, com suas qualidades físicas específicas competitivas. Para isso, é necessária a “desconstrução” das técnicas, análise biomecânica das principais articulações e grupos musculares envolvidos, e a “reconstrução” da mesma através de exercícios contrarresistência, tanto em aparelhos convencionais (salas de musculação, halteres, anilhas, caneleiras etc.), quanto com utilização de técnicas não ortodoxas, como meios naturais, peso corporal, materiais alternativos (bolas, elásticos, ginásticas acrobáticas, yoga, treinamento de consciência corporal etc.).

As técnicas adversárias auxiliam na criação de treinos táticos e técnicos de defesa, tai sabaki e kaeshi waza, além de influenciar a formação de treinos combinados e criação de novas alternativas de combate.
- condições gerais normais (análise das avaliações morfofuncionais) e situações específicas de lesões ou outros problemas externos que influenciem o desempenho.

A parte principal do treino – a individualidade biológica. Em determinados momentos, a busca pela vitória extrapola a consciência e rasga a tênue linha entre o ético e o possível. Quando não se medem esforços em busca da vitória a qualquer preço, alguém paga por isso, em determinado momento, e à vista. Por estes fatores, a formação do competidor, desde a base mais simples, em sua tenra infância, deve vir acompanhada de uma formação ética, sensível e responsável.

Através das avaliações das principais fases de crescimento e desenvolvimento ao longo da carreira, os planejamentos em longo prazo ganham uma maior fidedignidade e respeito à natureza morfológica e genética do atleta. Conhecer seus limites, ampliá-los de forma consciente e responsável, calcá-los em uma sólida e longa carreira vitoriosa, são as principais funções dos treinadores em relação aos seus comandados.

Dentro de avaliações constantes e reavaliações comparativas, o cuidado com a assertiva do planejamento, e suas devidas reestruturações, dependendo dos resultados obtidos. As possíveis lesões decorrentes de treinos, competições e momentos pessoais sociais, devem entrar no planejamento concomitante com o tratamento, adaptando-se todas as formas pré-planejadas à nova capacidade funcional do indivíduo. E, partindo deste ponto, refazer os métodos e meios de treino através de uma análise crítica que evite futuros problemas desta ordem.

Com isto, CRIAR, CRESCER, DESENVOLVER e PRESERVAR são as palavras de ordem no moderno mundo do Judô competitivo.

SAUDAÇÕES OLÍMPICAS!!!

Sebástian Pereira

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